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Estupros coletivos no Piauí revelam mal disseminado no Brasil

Diante da triste sequência de acontecimentos deste mal que esta a cada dia tomando de conta do Brasil, o Piauí aparece na mídia nacional como um lugar onde esse tipo de violência seria mais frequente. Mas não é o caso. Especialistas afirmam que é preciso desconstruir a ideia de que haja um padrão para crimes sexuais – no Brasil ou em outros países. “O estupro é como se fosse uma doença que se espalha massivamente, sem distinção. Ocorre todos os dias, em todas as classes e situações”, afirma a socióloga Fátima Pacheco Jordão.


Para ela, que é fundadora e conselheira do Instituto Patrícia Galvão, uma organização social voltada à comunicação e aos direitos das mulheres, “agora a imprensa está levando o assunto em consideração”. 

Dados nacionais sobre a violência contra as mulheres divulgados com base nas denúncias coletadas pela Central de Atendimento à Mulher (180) em 2015 comprovam que o crime do estupro – que desde de 2009 é descrito na lei brasileira como resultado de qualquer ato libidinoso sem o consentimento da vítima – acontece de maneira reiterada. Mais de 38% das mulheres em situação de violência são abusadas todos os dias e outros 33,86%, semanalmente. Dos relatos de violência registrados na Central nos dez primeiros meses do ano passado, 85,85% corresponderam a situações de violência doméstica e familiar. Em 67,36% dos relatos, as violências foram cometidas por homens com quem as vítimas tinham ou já tiveram algum vínculo afetivo.



Estupráveis versus não estupráveis

Lia Zanotta Machado enxerga o destaque dado na imprensa ao assunto – e o celebra, ainda que concorde com Fátima Jordão ao estabelecer que a violência sexual no país está a espreita de qualquer uma, em qualquer lugar. “Acho importante a comoção de agora, mas o estupro coletivo acontece sempre e muito. Vem de uma cultura de longa duração, em que se divide a figura de uma mulher honesta das outras. E dessas outras você pode dispor, ter a posse delas. Então, quando algumas mulheres dizem ‘não’, o homem não acredita”, esclareceu a antropóloga da Universidade de Brasília ao programa Cidadania, da Globonews. Em outras palavras, os estupros acontecem, porque na nossa sociedade a mulher é vista como uma extensão da propriedade do homem. “Ao invés de se perguntar ao homem por que ele fez aquilo, pergunta-se para a mulher por que ela estava usando determinada roupa ou andando sozinha a determinada hora da noite”, ela completa.

A afirmação é comum, inclusive na boca, muitas vezes, das autoridades públicas, mas é preciso desconstruir a ideia de que o estupro é um crime ligado a quem está marginalizado, sem acesso à Educação ou vindo de uma família desestruturada. Quem opina é a diretora do Instituto Patrícia Galvão, Marisa Sanematsu, para quem “estamos diante da ponta de um iceberg diante dos casos escabrosos que vieram à tona". "É preciso manter a mobilização e combater a subnotificação dos casos", diz a especialista, que estima que apenas de 10 a 24% dos casos de estupro são notificados no Brasil. 

Marisa, que edita o Portal Compromisso e Atitude pela Lei Maria da Penha, reconhece que o problema é nacional, ainda que cada lugar tem características culturais próprias. A questão, a seu ver, é que a violência sexual sempre vai acontecer onde o machismo siga perpetuando as agressões. Para que a barbárie deixe de existir, ela espera, como muitas, que a curiosidade e o espanto plantados na sociedade se transformem em permanente vigilância.
Estupros coletivos no Piauí revelam mal disseminado no Brasil Reviewed by J Silva on 07:30 Rating: 5

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